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LEITURA DE IMAGEM

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     De acordo com Santaella (2015),  é possível um letramento visual que leve os alunos a aprender a ler imagem, a partir da observação e análise de seus aspectos constitutivos. Sob essa perspectiva, pode-se dizer que, “No contexto institucional da escola, alfabetização visual significa desenvolver sistematicamente as habilidades envolvidas na leitura de imagens” (SANTAELLA, 2015, p. 14). 

     Hoje, pelo devastador avanço tecnológico, vivemos em uma época de estímulos visuais quase que a todo momento (SANTAELLA; NÖTH 2001). A leitura de imagens é realizada instantânea e instintivamente, sem que haja uma sistematização da exploração desse recurso. Ademais, se levarmos em consideração a leitura de imagens, podemos pensar que nunca se leu tanto, e é justamente pela falta de consciência de que imagem é texto que os leitores de imagem não se enxergam como leitores.

      Desse modo, podemos dizer que o registro da imagem representa a visualidade de um objeto por meio da pintura, do desenho, da fotografia ou de outras técnicas, De acordo com Santaella (2015), a imagem, como representação de algo, se presta à interdisciplinaridade, já que ela serve à arte, à história, à antropologia, à sociologia, à psicologia, entre outras áreas do conhecimento.

      Depreende-se, então, que as imagens são as representações daquilo que vemos, ou seja, são representações visuais e dependem da intermediação de “habilidades, instrumentos, suportes, técnicas e mesmo tecnologias” (SANTAELLA, 2015, p.18). 

Santaella (2015) evidencia a sua preocupação sobre a não consideração das imagens como instrumentos de leitura, dotadas de cunho informativo e passíveis de análises e interpretações. Equivocadamente, temos a percepção de que ler é decodificar sinais gráficos, e nos olvidamos das leituras diárias das placas de trânsito, das cores dos semáforos, entre outros estímulos visuais que nos levam ao ato de ler, assim “podemos passar a chamar de leitor não apenas aquele que lê livros, mas também o que lê imagens” (SANTAELLA, 2015, p. 10).

      Podemos relacionar o processo de leitura de imagens a um processo de letramento visual, que leve o aluno a não apenas ler superficialmente esse tipo de texto, mas a ter condições de desenvolver a análise de seus aspectos e traços constitutivos, e de reconhecer o que há no interior da própria imagem. A leitura de imagem proposta por Dondis (2015) engloba o desenvolvimento de procedimentos que auxiliam o sujeito a analisar e interpretar imagens. 

      Outrossim, ler imagens significa desenvolver a sensibilidade essencial ao leitor de textos imagéticos, ao reconhecer ou inferir contextos, desmembrar as partes constitutivas, e o que representam, compreender com que outras imagens dialogam e quais relações podem ser feitas com outros textos. 

      Dondis (2015) apresenta a possibilidade de leitura de imagem a partir da perspectiva de análise que vai além de simplesmente enxergar o texto imagético, e, sim, compreender e compartilhar seus significados a um certo nível de “universalidade”, ou seja, a proposta de leitura de imagem “traz em si a promessa de uma compreensão culta dessas informações e experiências” (DONDIS, 2015, p. 227). Dessa ideia depreendemos que, para que isso aconteça, é necessário que

se ultrapassem os poderes inatos do organismo humano, além das capacidades intuitivas em nós programadas para a tomada de decisões visuais numa base mais ou menos comum, e das preferências pessoais e dos gostos individuais (DONDIS, 2015, p. 227).

    Para se chegar à base mais ou menos comum de leitura de texto imagético, como proposto por Dondis (2015), é importante que se reflita acerca do ensino sistemático da leitura de imagens na escola. Ensinar a ler textos imagéticos prevê um processo diferenciado do ensino de textos verbais, entretanto ambos os processos apresentam algumas semelhanças, como o progresso de um ensino básico para um mais complexo e a decodificação das partes para o todo. Os elementos visuais explorados resultarão, no aluno, em um processo de letramento semelhante ao da aquisição da leitura verbal, ou seja, seu reconhecimento ou sua utilização deve alçar-se a um nível mais alto de conhecimento que os incorpore tanto à mente consciente quanto à inconsciente para que o acesso até eles seja praticamente automático. Devem estar ali, mas não de modo forçado; devem ser percebidos, mas não soletrados como acontece com os leitores principiantes (DONDIS, 2015, p. 228).

      A existência de uma “sintaxe visual” é afirmada por Dondis (2015), precipuamente no que tange a um ensino sistematizado de leitura da imagem. A autora revela a vicissitude da interpretação de uma imagem a partir do reconhecimento de

elementos básicos que podem ser aprendidos e compreendidos por todos os estudiosos dos meios de comunicação visual, sejam eles artistas ou não, e que podem ser usados em conjunto com técnicas manipulativas, para a criação de mensagens visuais claras. O conhecimento de todos esses fatores pode levar a uma melhor compreensão das mensagens visuais (DONDIS, 2015, p. 18).

      É necessário ressaltar que a decodificação da imagem, embora seja o primeiro passo para sua leitura, não basta para que o indivíduo seja considerado leitor de imagem. O processo de leitura de imagens vai além da simples identificação dos elementos que as constituem. Esse momento representa o primeiro passo em busca de uma análise mais aprofundada, pautada na construção de sentidos. É a escola que precisa nortear esse trabalho, mediar o processo de leitura de texto imagético, assim como o faz incansavelmente com o letramento verbal.

Cabe assinalar que o processo de construção de sentidos com base em textos imagéticos, segundo Dondis (2015), abarca a necessidade de compreensão de elementos individuais, unidos aos conhecimentos prévios do leitor, como suas experiências individuais. 

      A autora defende a ideia de que o conhecimento e a aplicação de técnicas tendem a auxiliar a percepção do sujeito e o tornam “mais perspicaz para qualquer manifestação visual” (DONDIS, 2015, p. 25). A aprendizagem e utilização desses e de outros componentes e técnicas importantes para a leitura de imagens representam um processo complexo e lento, entretanto “não há por que transformar a complexidade num obstáculo à compreensão do modo visual” (DONDIS, 2015, p. 25). 

Dondis (2015) enfatiza que, em relação à elaboração de mensagens visuais, a busca pelo significado não está pautada apenas nos efeitos causados pela organização dos elementos básicos, mas inclui o “mecanismo perceptivo universalmente compartilhado pelo organismo humano” (DONDIS, 2015, p. 30). 

      Desse modo, a autora deixa claro que ver e criar são processos distintos que exigem capacidades distintas para a construção dos significados do texto de imagem.  Além da construção de sentidos por meio da imagem, há de se pensar nos propósitos a que se destina a imagem, ou seja, sua funcionalidade, para que os sentidos sejam mais aprofundados.

     Na concepção de Dondis (2015, p. 30), “o ato de ver envolve uma resposta à luz”. Com isso, ela esclarece que os elementos mais importantes e que merecem maior ênfase na experiência visual são os tons. Uma vez que 

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Todos os outros elementos visuais nos são revelados através da luz, mas são secundários em relação ao elemento tonal, que é, de fato, a luz ou a ausência dela. O que a luz nos revela e oferece é a substância através da qual o homem configura e imagina aquilo que reconhece e identifica no meio ambiente, isto é, todos os outros elementos visuais: linha, cor, forma, direção, textura, escala, dimensão, movimento (DONDIS, 2015, p. 30).

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     Assim sendo, podemos depreender que a leitura proficiente de imagens é consequência de um ensino sistemático que deve começar na escola desde os anos iniciais. Nesse caso, o professor precisa mediar esse processo de construção de sentidos proporcionado pela leitura de textos imagéticos, já que a constância de suas ações poderá resultar na aquisição de novas habilidades leitoras de seus alunos.

     Destaco, ainda, que a proposta metodológica de Dondis (2015), ao sugerir “uma variedade de métodos de composição e design que levem em conta a diversidade da estrutura do modo visual” (DONDIS, 2015, p. 2), contribui para uma leitura aprofundada da leitura de texto imagético.

 

ELEMENTOS BÁSICOS DA COMUNICAÇÃO VISUAL (DONDIS, 2015)

      Professor (a), aqui você encontra os elementos básicos da comunicação visual, conforme propõe Dondis (2015). A partir deles é possível intermediar a sistematização da leitura de imagem, partindo do pressuposto de que “são muitos os pontos de vista a partir dos quais podemos analisar qualquer obra visual; um dos mais reveladores é decompô-la em seus elementos constitutivos, para melhor compreendermos o todo” (DONDIS, 2015, p. 52).

      Assim, para a análise e compreensão do todo de uma imagem, é importante a atenção nos elementos visuais específicos para o conhecimento de suas características individuais, o que representa um passo para a construção dos sentidos proporcionados pelo texto imagético.

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PONTO

      De acordo com Dondis (2015, p. 53), a unidade de comunicação visual mais simples é o ponto. O ponto possui a capacidade de atrair o olho humano, seja ele usado propositalmente ou naturalmente. Quando visualizados, os pontos são capazes de encaminhar o nosso olhar e a justaposição deles proporcionam a ilusão de tom ou de cor resultando na formação da imagem. Além disso, a sequência de pontos tende a levar o olhar com maior intensidade devido à proximidade em que se apresentam.

 

LINHA

    A linha é um elemento visual decorrente da proximidade entre os pontos, que fortalece a sensação de direção. Dondis (2015, p. 55) também define a linha como um ponto em movimento, pois ao fazermos uma marca contínua, colocamos um marcador de pontos sobre uma superfície e o movimentamos em determinada trajetória para gerar o registro.

 

FORMA

    Segundo Dondis (2015, p. 57), “a linha descreve uma forma”. Nesse sentido, podemos dizer que há três formas básicas: o quadrado, o círculo e o triângulo equilátero. Essas formas básicas possuem características específicas que, além atribuir diferentes significados à imagem, podem ser descritas e construídas com facilidade, tanto visual quanto verbalmente.

 

DIREÇÃO

      As formas básicas exprimem três direções visuais básicas: o quadrado, a horizontal e a vertical; o triângulo, a diagonal; o círculo, a curva. De acordo com Dondis (2015, p. 59-60), “Cada uma das direções visuais tem um forte significado associativo e é um valioso instrumento para a criação de mensagens visuais”. 


 

TOM

    O tom está relacionado à variação de luz. Entre o escuro e o claro e entre a obscuridade e a luz existem muitas gradações tênues.  De posse de sensibilidade, é possível que se chegue a muitos tons de cinza, por exemplo.

 

COR

    A cor está imbuída de informação e é uma importante experiência visual, a qual atribuímos algum significado. Uma das formas citadas por Dondis (2015) para ensinar a estrutura da cor é por meio do círculo cromático. São três as dimensões da cor: o matriz, a saturação e o brilho.

 

 TEXTURA

     Embora seja comum relacionar a textura ao tato, ela é um elemento que pode ser experimentado pela visão ou por ambos. A tatilidade da visão humana proporciona a sensação visual da textura, sem que se tenha que tocá-la.

 

ESCALA

    Chamamos de escala o potencial que os elementos visuais possuem para modificar-se em relação aos outros. A escala permite a distinção, por exemplo, entre o grande e o pequeno, o brilhante e o apagado, as tonalidades, entre outros.

 

     Professor (a), sugiro a leitura dos materiais referenciados abaixo:

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DONDIS, Donis A. Sintaxe da linguagem visual. Tradução Jeferson Luiz Camargo. 3ª ed.  São Paulo: Martins Fontes, 2015.

SANTAELLA, Lúcia. Imagem, cognição, semiótica e mídia. São Paulo: Iluminuras, 2001.

SANTAELLA, Lúcia. Leitura de Imagens. São Paulo: Melhoramentos, 2015.

© 2023 by Caroline Matos.

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